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...Onde sou melhor, se te invento a cada dia?Quando saio trêmula pelo vidro ou quando te enxerto em fecunda poesia?
"Magos e poetas extraem seus poderes de si
mesmos" Octavio Paz


POESIA, O ATALHO DE MAGOS E LOUCOS
Lívia Tucci

Afinal, o que é poesia? É uma linguagem orgânica e invertebrada? Sonora...elástica? É poesia a que revela a magia, a alquimia da palavra que transforma tudo o que a vida limita e não pode criar? O que sabe a poesia? Eu, nada sei...serei sempre aprendiz. Vejo a poesia, como o tempo, que está em todos os lugares, mas prefere se deter mais longamente na placidez das coisas simples e duradouras. É a contemplação da alma turbulenta. É poesia a que é pressentida nos símbolos que transcendem o ser e renovam a linguagem indolente. Linguagem extraída da essência poética, de nós mesmos. Onde está a poesia? A poesia está nos livros antigos, velhos e esquecidos. Nos contemporâneos e virtuais. Nas areias da praia. Está nos sebos, nas bibliotecas, nas livrarias. Nas latas de lixo, quando o pensamento vil e homens de pouca fé não comportam em si tanta invasão poética. Está na casa dos amigos, nas suas estantes e banheiros. Em livros esquecidos de serem devolvidos. Está nas ruas, nos bares. Nas gavetas e no seu silêncio. Na anarquia e no inconformismo. No grito afiado dos oprimidos. Em bordéis e lares nem tantos. No avesso e no direito. No sangue e suor transpirado. Na loucura e no inesperado. Na lama e no lótus. A poesia está na primeira impressão, nos versos livres, contidos, contados. No corpo descrito, desnudo, velado, dos cantos e salmos. No sagrado e no profano. Está nos traços, pelo carvão e pincel que desliza, sensual, sua cor e drama na folha branca. O que sabemos da poesia? Muito pouco, por ser ela inconstante, mutante, autofágica...num surpreendente mimetismo. Conhecemos sua partida. Desconhecemos seu destino e chegada...tudo pode ser possível entre uma estação e outra. Há poesia na imagem que se traduz em momentos únicos, líricos, oníricos. Imagens irreversíveis. Instantâneos reveladores. É poesia a que recicla vocábulos, revira signos e movimentos? É poeta o que descobre um novo ritmo, sempre que o coração se encontra e dispara ou repousa na placidez das águas do bem e do mal? São todos os sentidos nas flores do zen, nas cores do mar. Nas festas ao sol, nos saraus ao luar. A poesia é um estado de espírito, de espera e de espanto. Na comunhão universal ou na paz de nossa própria solidão...

" A alma pressente o que busca e segue enigmaticamente as pegadas de seu obscuro desejo" Platão


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EVOLUÇÃO DOS HOMENS


Que me alises, felina, em pleno cio,
como os gatos se enroscam e
ronronam
horas a fio, horas a fio.

Yo no creo en las brujas
pero que las hay, hay.
E por que doem minhas vísceras de ruminante?
E pra quem armam tuas unhas fendidas,
a visão noturna, a fome de cães,
um império de animais?

Que me alises, linda, lírica,
em onírica malícia, verte
e baba a resina, a sina química
que solta dos pêlos, favos.
Que adormeça, messe, meça
outro cio que estiver por vir.

E se eu me hibernar
no teu olhar de lince?
E se eu derramar em ti,
meu líquido denso,
numa várzea de véus?

Que eu mereça tuas mandíbulas,
no alvo exclusivo, que eu pereça,
que eu feneça em nódulos,
em lendas pré-históricas, que eu me esqueça.

E assim sendo, serei o pêndulo
da tua espinha,
te guiarei das trilhas à tocaia.

Eu, descuidada, um antílope.
Nós, liquidados, presas submersas,
e nas pernas rígidas, o colapso,
no tronco, o último golpe.

Perigoso, perigoso, que te tornes,
no tempo do abate, que é ora findo,
quando as pontadas de fome
nadarem em derredor.

Deus, salva-nos do dilúvio.
Que a disputa não se finda,
que as lutas entre os machos prevaleçam,
o instinto, a onomatopéia, o instinto,
as espécies e as fêmeas.
Deus, a benção.


A ciência dos flamingos, clamo.
A fidelidade dos cisnes, clamo,
pelos animais em evolução.

Brisa nenhuma quebre a placidez dos ares,
o círculo das águas.
Que eu equilibre a natureza,
no instante letal do medo.

Animais em fuga, sejamos sempre,
em majestosa solidão.
Que nos habitem chacais do vale.

Que eu aprenda
a evitar, cada vez mais,
a tua mão de Homem.

A ciência dos flamingos, clamo.
A fidelidade dos cisnes, clamo,
pelos animais em evolução.

Brisa nenhuma quebre a placidez dos ares,
o círculo das águas.
Que eu equilibre a natureza,
no instante letal do medo.

Animais em fuga, sejamos sempre,
em majestosa solidão.
Que nos habitem chacais do vale.

Que eu aprenda
a evitar, cada vez mais,
a tua mão de Homem.
Lívia Tucci, do livro "O Avesso do Cristal".

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