
RETALHOS CASUAIS
Quando inteira pego fogo,
sem ser verão, sem ser estio,
vasculho os sonhos na hora incerta,
no nascer do corpo, no nascer do cio.
Em carícias, em regaços,
flecho o alvo doce e assisto
em passos lentos, os teus passos,
ruir a desordem da matéria,
quente e lassa,
nas células, o sobrevôo de ternas libélulas.
Quando danço refeita,
depois da festa, depois do riso,
guardo o cheiro, o traço, as vértebras,
de todas as palavras, os versos,
em suma, o resumo para um novo livro.
Recomponho em cacos e versículos,
as manhas que traças em minhas fendas,
quando o sangue de tua carne prevalece,
quando a boca seca-te o poço, trêmula..
Sábia, em noites crescentes,
me abro em concha estelar
e é sempre quando na chuva,
mirrada, me derreter,
será, sempre, quando
frágil, me inundar,
aí, então, só tu
vais me entender,
me acolher
e me secar.
In O AVESSO DO CRISTAL, de Lívia Tucci.